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Victoria

Conto que escrevi na pré-adolescência…

I ATO

E foi ali que eu o vi, no meio de todos, rindo e fazendo gestos com a mão enquanto falava.

Sentei-me distante numa pedra e olhei para as estrelas procurando consolo. Eu podia distinguir sua risada das outras e não conseguia prestar atenção em outra coisa. Chorei debaixo das estrelas, chorei como não chorava há tempos.

Pouco tempo depois, uma voz se pronunciou atrás de mim e a reconheci imediatamente. Tremi os lábios e prendi a respiração.

- Está sozinha? Por que não vem se sentar com a gente?

Olhei pra ele e não consegui responder, ainda faltava-me o fôlego.

- O que aconteceu? – disse ele, sentando-se ao meu lado e passando a mão nos cabelos louros-acinzentados.

- Gosto de olhar as estrelas – respondi. – Gosto do silêncio… da noite.

Encostei-me na pedra suspirando, traindo minha felicidade por ele estar tão perto.

- São bonitas mesmo. A minha predileta é aquela ali – apontou, mostrando-me a pequena estrela que brilhava cor de fogo e não prata como as outras.

- É a minha predileta também – falei sorrindo.

Não suportava olhar seu rosto e ver apenas expressão de carinho e amizade. Saber que seu coração jamais pertenceria a mim.

Novamente, perdi a respiração quando ele se virou e me encarou. Como se acordasse de um transe, ele piscou os olhos e se mexeu novamente, e foi então que percebi decepcionada que ele não olhava para mim de fato.

- Você já deu nome às estrelas? – falei interrompendo o transe.

- Você já? – ele respondeu, franzindo a testa e desviando o olhar. E, logo depois, deixando escapar um sorriso maroto.

- Uhum! Mas perguntei a você primeiro.

- Victoria – disse ele, como se estivesse acabado de inventar e, em seguida, apontou novamente para a estrela cor de fogo.

Meu nome. Ele estava apenas sendo gentil, apenas querendo arrancar um sorriso meu após perceber o quanto eu estava triste.

- Victoria? – perguntei, sorrindo sem jeito.

- Veja bem, – começou ele, – ela tem um brilho que chama mais atenção que as outras, é pequena, mas é a maior em presença e o toque final; não precisa das outras para ser completa. Você não concorda?

Seus olhos cinzentos brilhavam enquanto falava. Ele permaneceu sem falar por um tempo e, de repente, sem intenção de se explicar, levantou-se e foi embora sem olhar pra trás.


II ATO


Era de manhã. Estava fresco e o dia lindo. O céu estava limpo e eu não me importei de dormir na pedra. Por consequência, acordei dolorida e suja de terra nas mãos e nos cabelos. Caminhei até o rio próximo, me banhei e depois me sentei na beirada para comer as frutas que havia colhido no caminho.

Alguém tocou meu ombro, assustando-me, e acabei deixando a uva cair de minhas mãos.

- Perdão, não pretendia te assustar. Você está bem? – perguntou ele.

- Estou bem, – respondi – apenas dolorida. Acabei dormindo na pedra e não era tão macia quanto eu gostaria que fosse.

Ele sorriu. Era um sorriso simpático, sincero e o mais belo que já vi em toda a minha vida.

- Quer comer essas uvas que eu trouxe? Parece que derrubei a única que tinha.

- Era a última, já estou satisfeita, obrigada.

- Eu fiquei preocupado.

- Preocupado? Comigo?

- Mas é claro que sim – disse ele, olhando para o rio sentando-se do meu lado. – Ainda é cedo, todos estão dormindo.

- Parece que sim.

- Gosta daqui? – perguntou em seguida, jogando os pés para dentro d’água, balançando-os junto com os meus.

Assenti. Ele me olhou devagar, parecia me observar com cuidado. Desviei o olhar para uns peixinhos que tentavam nadar contra a correnteza.

- Você não parece estar gostando – falei, pegando uma pedrinha com a mão direita.

- Não. Pelo contrário. Estou encantado com esse lugar, com tudo nesse lugar. Por que pergunta?

Apenas sorri.

- Você é que não me parece estar muito feliz.

- A felicidade é diferente pra mim – falei, finalmente atirando a pedrinha no rio.

- Diferente como?

- Apenas diferente. Não gosto de pensar que sou feliz, e ao mesmo tempo sei que não sou. As pessoas aprendem a ser felizes e nunca se contentam, estão sempre buscando por mais, com toda a razão, imagino.

Em seguida, olhei nos olhos dele.

- Prefiro ser feliz assim do meu jeito, não sendo. Assim qualquer sorriso é válido.

- Victoria?

- Diga.

Ele se levantou e pegou minhas mãos levantando-me também. Por um momento achei que fosse me beijar, meu coração disparou e meus lábios secaram, mas ele desviou o rosto, colando sua bochecha na minha e apenas sussurrou em meu ouvido:

- Invejo as estrelas que todas as noites ganham sua admiração – e dizendo isso, se afastou, dessa vez olhando para trás com um olhar triste.

E com aquelas palavras martelando minha cabeça, comecei a chorar desesperadamente, pois ele havia começado a brincar com os meus sentimentos.

III ATO

A noite esfriara um pouco, porém ainda com temperatura agradável. O vento que soprava na nuca não incomodava. Deitei-me na grama, próximo à pedra onde havia passado a noite anterior, olhei para o céu estrelado e refleti sobre os fatos recentes. Fechei os olhos para sentir melhor a brisa em meu rosto e senti uma presença se aproximar. Duas mãos cobriram meus olhos cuidadosamente.

- Diga-me o que vê agora?

- Eu vejo um céu que chora estrelas. E você, o que vê? – perguntei.

- Eu vejo você, Victoria… – e aproximou seu rosto quase encostando seu nariz com o meu. Olhei em seus olhos, tentando manter a distância e a calma. Juntei forças e falei em seguida, um pouco mais ríspida do que eu gostaria:

- Você inveja as estrelas por causa da admiração que as ofereço, pois agora estou diante de você, admirando seu olhar e só o que vejo é medo e insegurança.

Percebi que ele respirara fundo antes de deitar-se ao meu lado. Seus olhos haviam enchido d’água e ele permaneceu calado por um tempo, desviando o olhar para as estrelas como eu fazia. Foi quando me levantei e deixei-o com seus pensamentos, seguindo um caminho de terra sem saber o que pensar ou para onde ir.

No meio do caminho, desisti de fugir. Retornei decidida até o lugar onde havia deixado meu cavalheiro pensativo, e me surpreendi ao vê-lo ainda deitado, fitando o céu iluminado. Parecia hipnotizado.

Ele me viu um pouco antes de poder chamá-lo. Levantando-se, cobriu meu rosto com as duas mãos, olhou nos meus olhos, ajeitou meu cabelo para detrás da orelha e desceu uma das mãos para o meu pescoço.

- Você, Victoria, você é a minha resposta. – E me beijou. Foi um beijo sincero, romântico, não foi desesperado, nem relaxado. Foi perfeito.

E como todo beijo verdadeiro, esse também não durou muito. Quando nos separamos, nos encaramos por um bom tempo e nós dois, ao mesmo tempo, percebemos que nossa paixão seria impossível. Apenas esse olhar de segundos foi como se tivéssemos conversado durante horas.

Com um abraço, me fazendo desejar jamais sair dali, despediu-se finalizando o momento apenas com um beijo carinhoso na minha testa.

E pela última vez ele olhou nos meus olhos e disse:

- Vou continuar invejando as estrelas por toda a eternidade, mas todo esse tempo não vai ser páreo para a inveja que elas sentiram de mim hoje.

 

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